De tempos em tempos, as ameaças fitossanitárias causam grandes danos e deixam rastros nas lavouras das principais culturas do País. Ao que tudo indica, 2015 será mais uma temporada de caça às pragas e doenças

 

Texto: Fátima Costa

 

percevejo-marrom (Euschistus heros) que ataca as vagens da soja

 

Ela já ficou conhecida entre os agricultores pela destruição que provocou na safra 2013/2014: prejuízos na soja no Mato Grosso, que foram estimados em mais de R$ 1 bilhão, conforme dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agro-pecuária (Imea). A Helicoverpa armigera, nome científico da lagarta, que foi identificada pela primeira vez no Brasil na safra 2012/2013, protagonizou um pesadelo para os agricultores.

Mas, desta vez, a espécie exótica deixará de ser a vilã principal para se tornar coadjuvante. Ao menos esta é a previsão dos pesquisadores da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária do Mato Grosso (Fundação MT), em Rondonópolis, e da Embrapa Agrossilvipastoril, situada em Sinop (MT). “Devido a todo o alerta que foi dado para monitorar bem essa população, e não deixá-la crescer, tanto em quantidade quanto em tamanho. Outro ponto é a presença dos inimigos naturais, como os parasitoides, que é muito importante para o equilíbrio da população na lavoura e, nesta safra, percebeu-se que em várias áreas houve a presença desses inimigos naturais. Agora dependerá das condições do ambiente e do manejo adequado. A tendência é as populações de inimigos naturais crescerem, só assim, neste ano, poderemos ter um número menor de infestações, inclusive em outras culturas comerciais, como o milho e o algodão. No entanto, a condição do ambiente, como a umidade, influencia na dinâmica dessa população”, afirma Lucia Vivan, entomologista da Fundação MT.

Com a H. armigera dando uma folga, outras espécies prometem ser as principais estrelas em 2015. A lagarta Chrysodeixis includens, mais conhecida como falsa-medideira, é uma delas. A praga, que ataca as folhas da soja, está presente também na cultura do algodão e do feijão. “Ela está ocorrendo em populações semelhantes às das safras passadas, ou seja, durante o período de fechamento das linhas, o que dificulta o controle pela dificuldade de atingir o alvo. O surto de populações pode acontecer por um descuido no momento inicial da infestação. Como a soja vegeta muito e a lagarta ataca a parte inferior da planta, é importante ter uma tecnologia de aplicação que favoreça o molhamento de toda a planta. Também deve-se levar em consideração os inseticidas que são mais efetivos para o controle dessa espécie e, no caso de haver H. armigera, o controle deve ser diferenciado, já que os produtos que oferecem bom controle para H. armigera não oferecem controle satisfatório para lagartas falsa-medideira”, diz.

Para o entomologista da Embrapa Agrossilvipastoril, Rafael Pitta, no Estado do Mato Grosso, a região oeste foi a que teve maior registro de infestação da lagarta falsa-medideira em soja na safra 2013/2014. “Essa lagarta tornou-se uma praga importante para o sistema de produção onde ocorre o cultivo de soja de verão e algodão safrinha, pois o inseto se adaptou à cultura algodoeira. Como consequência, o período de disponibilidade de alimento aumentou, permitindo, assim, um maior número de gerações da praga no ano”, afirma.

Ele lembra que outras espécies do gênero Spodoptera que eram consideradas de ocorrência esporádica estão ganhando maior importância na cultura da soja. “Com a crescente adoção do cultivo da soja Bt [chamada assim porque recebeu uma toxina extraída da bactéria Bacillus thuringiensis], as lagartas de Spodoptera multiplicam-se mais facilmente, pois não há competição com outras espécies de lagarta que são facilmente controladas pela tecnologia Bt. Além disso, após a colheita da soja, essa lagarta migra para as culturas de milho e algodão cultivadas na sequência”, explica.

Antes coadjuvante de pragas importantes, Pitta alerta para o percevejo-marrom (Euschistus heros). Presente em todo o território nacional, ele ataca as vagens da soja e pode causar dano à produção. Hoje a mosca-branca também tornou-se uma praga da horticultura, do feijão, do algodão e da soja, gerando grandes perdas em regiões produtoras. “Ela vem ocorrendo em regiões com o final do ciclo da soja, principalmente em áreas onde o algodão é cultivado na sequência”, diz.

Para os especialistas, a orientação para um final feliz é a mesma: fazer o monitoramento de toda a área. Acompanhar a lavoura diariamente, o que possibilita a identificação da praga, da espécie, do tamanho, da população e da forma de controle mais eficiente para a espécie da lagarta ou do percevejo. O entomologista reforça que o agricultor precisa manter o controle das lavouras e usar os agrotóxicos com moderação, evitando o uso desnecessário e sem fundamento técnico. “O prejuízo maior que a Helicoverpa causou foram os números excessivos de pulverizações, sem necessidade, que o produtor aplicou devido à falta de monitoramento.” Ele também destaca que é preciso fazer o Manejo Integrado de Pragas. Outra recomendação é o vazio sanitário, uma estratégia de controle que pode ser utilizada para várias pragas e doenças. “As regras gerais e os prazos específicos para cada cultura são determinados em âmbito estadual, sendo o órgão estadual de defesa sanitária responsável pela fiscalização.”

Invisíveis e perigosos

“Nematoide é um problema da sua área?”, este foi o tema abordado por Rosangela Silva, pesquisadora da Fundação MT e uma das palestrantes do evento “É Hora de Cuidar 2014” (ciclo de debates que aconteceu em 25 cidades dos Estados de Mato Grosso, Goiás e Rondônia). Na ocasião, a especialista ressaltou a importância dos principais nematoides e o agravamento do seu surgimento em algumas áreas. “Esses vermes que ficam no solo atacam a lavoura, ocasionando prejuízos que podem aumentar potencialmente a cada safra, caso não se estabeleçam diversas práticas de e, mesmo assim, o produtor ainda terá que conviver com esses maus hóspedes, já que é impossível erradicá-los totalmente”, diz Rosangela Silva.

Há pelo menos cinco espécies de nematoide que causam perdas significativas à cultura da soja, entre elas: Rotylenchulus reniformis (nematoide reniforme) e as espécies Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, (nematoide de galha), Pratylenchus brachyurus (nematoide das lesões) e Heterodera glycines (nematoide do cisto da soja), sendo que as três últimas são destacadas como principais para a sojicultura e as mais frequentes nas lavouras do Mato Grosso. “O efeito mais devastador que eles causam é a interrupção da circulação dos nutrientes, devido à destruição do sistema radicular, reduzindo o vigor da planta e consequente redução da rentabilidade do produtor”, afirma.

Como são vermes muito pequenos e transparentes, impossíveis de ser vistos a olho nu, eles estão presentes na raiz da planta e são de difícil diagnóstico, uma vez que não deixam sinais aparentes e só são identificados por meio de análise de solo. “Eles infestam várias culturas, sendo que as espécies Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, (nematoide de galha) e Pratylenchus brachyurus (nematoide das lesões) também são importantes patógenos para a cultura do milho.”

Esses patógenos são, de acordo com a pesquisadora, uns dos beneficiados pelo manejo inadequado do solo. Outro fator é que, com o advento da introdução da safrinha de soja, esses fitonematoides continuam multiplicando-se na lavoura e possibilitando maiores danos às safras subsequentes. Em fevereiro do ano passado, a Fundação MT divulgou um comunicado reforçando o alerta sobre os riscos de se fazer uma safrinha. De acordo com a instituição, a presença de nematoides foi constatada em visitas a lavouras no Estado mato-grossense. E o fato pode se repetir. Segundo a pesquisadora, a semeadura sequencial de soja mantém os hospedeiros que favorecem a presença da praga. “As principais culturas utilizadas em sucessão ou rotação com a soja, sejam milho, sorgo granífero, algodão, girassol ou aveia, possuem nematoides comuns”, diz.

Rosangela lembra que se consegue um bom resultado no manejo desses vermes usando variedades resistentes. O aumento de massas e matéria orgânica e, consequentemente, o aumento dos micro-organismos do solo também contribuem. A rotação, ou pelo menos a sucessão de culturas não hospedeiras, é muito importante para quebrar o ciclo dos nematoides. “Assim como o uso do controle biológico, que tem sido bastante feito, principalmente no Mato Grosso.”

Fonte: Conexão Rural